sexta-feira, 30 de outubro de 2009

pela estrada fora


olhos nas guias contínuas da berma e mão no volante, nevoeiro e noite dentro, o nevoeiro que chega sem aviso noite dentro, para assombrá-la, dirão os do copo meio vazio, para torná-la mais irresistível, dirão os outros, nada se vê em todo o alentejo, ali em frente roda um condutor que não desliga os quatro piscas, deve ter receio que o vejam tarde de mais, rodamos a 70; outros, dementes, voam por nós à velocidade da demência, mas eu sigo-te de perto, a ti, o dos quatro piscas - o caos da cidade grande ficou para trás e estou contigo nisto, oiço o revolver dos beatles e sei que ambos queremos sair bem disto, queremos poder contar a quem nos queira ouvir, ou ler, não tanto que acabe já, só mais um pouco, prolonguemos a dúvida - é uma espécie de banho, ficaremos bem.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

hey judd


o zé quer impressionar a malta na segunda leva: tem tantos militantes como independentes e, nas caras novas, tantos homens como mulheres: quatro - entre estas uma sindicalista, uma escritora e uma actriz. avante!, camarada.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

uma coisa absurda



não sei se há uma música má no novo dos temper trap, quer dizer, é tudo assim.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O Mourinha não pesca nada disto



Foi na apresentação do filme Parlez-moi de la pluie, cujo título em português se transforma em Deixa Chover. Presente no São Jorge, onde o seu mais recente filme foi apresentado na abertura da Festa do Cinema Francês, a belíssima Agnès Jaoui respondeu a perguntas sobre o título - "escolhê-lo foi uma dor de cabeça e, no fim, nada tem a ver com o filme" -, sobre a hipótese de ter realizado uma comédia agridoce para gente madura - "vá, pode ser" - e à entrevista que lhe fez o Jorge Mourinha, publicada no Ípsilon, onde se lê, com base no visionamento do filme, que "Agnès Jaoui está zangada com os políticos franceses". Resposta para cinéfilo ouvir: "Ele não percebeu nada".

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Morocco, nice!


Acordei a pensar que o dia estaria uma merda. Brrr.. quando saí do banho. Coisa estranha. Troquei a habitual t-shirt por uma sweat. O verão morreu, pensei, ao dar com os meus braços cobertos. Viagem para Lisboa no horizonte.

Sem gasóleo que chegasse, passei pelo E. Leclerc para corrigir a coisa. Pensei: “A mangueira é ágil que chegue para sobrevoar o topo do carro e chegar ao lado contrário para entrar no buraquinho antes de começar a cuspir combustível". Enganei-me. A mangueira do E. Leclerc de Portimão está um pouco enferrujada, e tantas dificuldades tive em prosseguir os passos atrás descritos que em menos de nada ela já besuntava chão, chapa do carro, pés do rui, uma festa. Três horas depois sentiria o cheiro na pele tão intenso como naquele momento – assim nos interrogamos até que ponto a porta tem força suficiente para servir de bandeira em exemplos de teimosia.

De caminho para a capital percebi que os tempos são velozes, de modo que o tecto lá em cima ganha nuvens à mesma velocidade com que as perde. Lá a porra, hein!. T-shirt recuperada enquanto os quatro-piscas pediam desculpa pelo carro estacionado à berma da estrada.

Cheguei. Feriado é dia de trabalho porque, já se sabe, jornalista colhe no dia seguinte o que semeou na véspera. Bem, uma parte da fauna. (A minha avó podia ter dito isto para cinco segundos volvidos se esquecer completamente).

Projectei um dia calmo. Escrever sobre desporto e o destaque para o Benfica, que jogaria já sem sol. Chega a minha editora. “Olá P.!”; “Olá Rui,”. A virgula não é inocente. Atarefada, pediu-me um favor. Olha daqui a um bocado vai ligar alguém para entrevistares os Backstreet Boys. “Quê?”, perguntei, como se não tivesse ouvido.

Falei com o moço que se desorientou aí uns tempos com grandes mocas. Tossiu mais do que falou. Estavam todos com gripe. O mundo sabe ser cruel.

O dia foi longo e, como de costume aos domingos e feriados, tive de inventar um estacionamento quando cheguei a casa. Antes encostei o carro ali perto e tirei as malas. Olá Rui, olha está cá um chileno agora!, disse-me da varanda um colega de casa. Um chileno?, peguntei, como se não tivesse ouvido. Era tarde.

Subi as escadas e disseram-me que o chileno queria jantar. Quase meia noite. Tem a Portugália: digam-lhe que vou tentar estacionar o carro e posso levá-lo. Batem-lhe à porta. O chileno aparece. Saco do meu espanholês. Olá puedo levarte para cenar se quieres, ballet?

Nem uma, nem duas. Nada. Ali perto, o espanhol da casa explicou em inglês ao chileno o que eu lhe tinha dito. "Nice!, nice!", respondeu. Ocorreu-me perguntar que espécie de chileno era ele. Resposta: “Morocco, nice!”

Como chovia cats and dogs, expressão que utilizo para me fazer entender à I., resolvi acompanhar o Ahmed - Ahmed como o terrorista-marioneta que está mais ou menos morto - à Portugália e jantar com ele. Não come porco, naturalmente, é muçulmano. O melhor filme é o Casablanca, onde nasceu, e a melhor comida é a marroquina, explicou-me, sem demasiados detalhes. Depois anunciou que não renega álcool – “makes me happy and is good to dance” – e tem namorada – “everyone has a girlfriend” - e mostrou jogo de rins quando lhe dei a minha opinião sobre essas coisas da religião.

Cada um virou o seu bife de vaca e no fim enganei-me nas contas com o empregado, que veio atrás de nós exigir os 10 cêntimos que faltavam. Perdi a cabeça e dei-lhe uma moeda cheia, 50 cêntimos. Fique com o troco. De alguma forma o homem não quis a oferta. “Isto é seu”.

Chovia mesmo muito pelo que mudei de ideias: já não vou deixar o carro ali perto, onde estacionei. Vou tentar a minha sorte perto de casa. Encontrei um lugar com estacionamento permitido das 20h às 8h. Acordo às 07h50 e depois volto, que amanhã estou a fechar o jornal e, raios, estou cansado. Às 05h acordei porque tinha sonhado que me atrasara em vinte minutos e me tinham levado o carro. Quase não preguei olho desde aí. Cheguei ao carro depois de passar pelas pessoas penteado pela almofada e desloquei-o para o outro lado da estrada. Rodas em cima do passeio, todo torto. Mudei-o mais para a frente. Três tentativas e muita remela no canto do olho. Estacionado. Fujo. Cama. Sonhei que fui e voltei de Amesterdão.

sábado, 3 de outubro de 2009

Fuck Buttons: vísceras, beleza e isto de dizer palavrões

A experiência de assistir pela primeira vez a um concerto dos Fuck Buttons, que estiveram em Lisboa na quinta-feira para apresentar o novíssimo disco Tarot Sport, assemelha-se a essa fase dos namoros a que chamarei de ‘paraíso’. Este atravessa o conhecimento mútuo de duas pessoas, passa pelo jogo da sedução e estende-se para lá do laço criado entre ambas - na maioria dos casos, o ‘paraíso’ dura algumas semanas na vida real, aqui e ali prolonga-se por meses e nos filmes é para sempre.

Além do talento que têm para produzir música electrónica experimental, o duo formado pelos ingleses Andrew Hung e Benjamin Power navega na crista da onda sónica actual. As vénias das mais prestigiadas publicações especializadas sucedem-se um pouco por todo o mundo. Até à data faltava que a tinta das portuguesas tivesse a oportunidade de, sem apanhar um avião, tentar explicar porquê.

O encanto peculiar que os distingue, e que lotou a diminuta Galeria Zé dos Bois, explica-se de seguida: para uma banda que faz do ruído o seu ritmo cardíaco, na senda do legado deixado por outras como Mogway (a melancolia pop), My Bloody Valentine (distorção, para que te quero) ou The Field (a circularidade do techno minimal), os Fuck Buttons têm uma noção melódica que desarma o mais desprevenido.

Temas como ‘A Bright Tomorrow’ e ‘Sweet Love for Planet Earth’, do álbum de estreia Street Horrrsing (2008), ou ‘Surf Solar’ e ‘Space Mountain’, de Tarot Sport, são, sobretudo, belas. A conclusão retira-se pela ressonância admirável que o frente-a-frente de Hung e Power teve nos suados aventureiros que cozeram no forno da ZDB. O programa arrancara com os portugueses Ninjas!.

Hora e meia depois do início do concerto, quando o silêncio se impôs, a energia que pairava no ar dizia-nos que se tinha escrito história ali mesmo, ao vivo, à frente de todos nós. Portugal já sabe: os Fuck Buttons, que ainda hoje reclamam divertir-se à brava com o nome que escolheram para o seu projecto, desfizeram em cacos o epíteto de ‘hype’ que inevitavelmente é associado a uma banda que salta para a ribalta no seu álbum de estreia. Street Horrrsing já pode reclamar o estatuto que bem entender depois de o duo noise de Bristol ter elevado a fasquia com Tarot Sport.