sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Engolir em seco



Na caixa de comentários deste vídeo da 'Home', do Patrick Watson, alguém diz que soube naquele mesmo dia, há três anos, que lhe tinha sido diagnosticado um cancro, que teria 40% de hipóteses de sobreviver e que ouvir esta música lhe dava algum conforto para o que a partir dali viria.

Instantaneamente, centenas de pessoas quiseram deixar palavras de coragem a esse doente, que foi agradecendo. Agradeceu várias vezes durante aquele ano - o YouTube só distingue a data dos comentários entre anos e deu para perceber que esses comentários eram referentes a 2014. Fui descendo na barra cronológica, e quanto mais descia mais o coração acelerava e apertava, até estabilizar em 2017, na incerteza: todos os comentários que encontrei, a partir de 2015, foram das pessoas que queriam saber como é que o fã do Patrick estava.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Um arrepio na pele, água na boca


   
Sabe-se há alguns anos que a música é coisa para fazer o nosso cérebro libertar uma substância química associada ao bem bom, a dopamina. Foi o que me aconteceu com Modern Girls & Old Fashion Men, o lado B do single Reptilia, dos Strokes, um dueto com a Regina Spektor no qual tropecei por ter acordado com o lado A a tocar no meu radiozinho interior. Um arrepio na pele, água na boca, isso tudo que o Marco Paulo explicou.

(Dez meses sem vir ao Castelo, assim de repente lembrei-me do Gil Scott-Heron, que já depois dos 60 cantou: «I'm new here, will you show me around?») 


domingo, 23 de outubro de 2016

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Cartas da Guerra: cinema-cinema


Pouco ou nada tenho ido nos últimos anos, e já não me lembrava disto, como pode ser verdadeiramente mágico, o cinema-cinema, não o outro, como é verdadeiramente mágico que limitações de orçamento e uma nesga de luz te levem por caminhos que trazem ainda mais encanto à tua obra, rodar a preto e branco, que dádiva para o nosso imaginário de repente saírem debaixo das pedras os Fellinis e tantos outros mestres, o drama cómico da existência tocado a flautas que não encantam só serpentes, não, e embalados assim vamos com o Lobo Antunes até onde o Ivo Ferreira quiser, aliás, puder, vamos, que não podíamos ir melhor, hipnotizados pela voz-ao-ouvido da Margarida, que passa o filme a dizer-nos coisas de uma maneira que, minha mãe.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Sporting: abrir a pestana em Vila do Conde


Já a frio, e porque massa crítica é coisa que nunca me faltará, a primeira coisa que tenho a fazer é criticar aquele que sempre defendi enquanto treinador e de quem sempre me ri enquanto figura do futebol, um barrasco que anima um universo de falsas modéstias, que faz falta. Não sei se o Jesus quer concretizar no Sporting o sonho de ganhar a Liga dos Campeões, mas sei que actualmente a melhor equipa que ele tem foi a que jogou bem e perdeu mal no Santiago Bernabéu, não a que jogou mal e perdeu bem em Vila do Conde.

Alguma coisa mudou naquela cabecinha pensadora, e, se assim foi, estamos mal. O homem tem é de meter no campeonato os melhores, porra. Acho que isto não tem discussão possível.

Este parece-me o primeiro erro do Jesus, virar o bico ao prego e dar prioridade à prova secundária. O segundo está nas opções tomadas no domingo, e entronca no discurso fanfarrão da véspera.

A ideia que passa é que o Jesus pensou que qualquer combinação de jogadores servia para ganhar, uma vez que o treinador era ele. Fosse em Vila do Conde ou em Sarilhos Pequenos. O que nos meteu em sarilhos grandes.

Mesmo mudando quatro peças, era possível ter uma equipa mais bem preparada para ganhar ao Rio Ave. Tem de haver equilíbrio. Não houve.

Ao lançar em conjunto os dois laterais mais ofensivos (Schelotto e Bruno César), os dois extremos mais avançados (Joel Campbell e Gelson Martins) e dois avançados que não defendem (Alan Ruiz e André), o Jesus boicotou o próprio modelo de jogo, que vive da capacidade de pressionar colectivamente e roubar a bola logo no meio campo adversário. Não vi o jogo, mas entretanto já espreitei o resumo e é fácil de notar que nos três golos do Rio Ave há jogadores deles que vão por ali fora sem que alguém lhes faça frente. Neste ponto, miserável a postura do Campbell, que não me parece capaz de jogar neste modelo como o médio ala inteligente e solidário que o mesmo pede.

Só Adrien e William para correr atrás dos outros não chega, ainda por cima depois do esforço da dupla em Madrid. Tinha tudo para dar errado. O Rio Ave soube tirar partido do adormecimento do Sporting quando saía para o ataque e tem a capacidade que falta a outras equipas de aproveitar os espaços da melhor maneira. Depois, primou por um índice de eficácia que, por exemplo, teria dado ao Braga a liderança do campeonato, tal a quantidade de golos cantados que falhou na Luz, um cenário idêntico ao da Supertaça. 

A segunda casca de banana está já ali

De maneira que demos o primeiro tiro no pé à quinta jornada, o que ficou ainda mais exposto devido à vitória do Benfica. Perdemos o primeiro lugar, cuja relevância em Setembro passou a ser indiscutível, do dia para a noite. E agora? Agora é despachar o Estoril e abordar com juízo o próximo jogo da Champions, a meio da semana, com os polacos, de maneira a que na visita que se segue, a Guimarães, tenhamos a melhor equipa, na melhor das formas. Tudo com equilíbrio, se não for pedir muito.

Ainda sobre o Jesus, insisto: gosto muito dele enquanto treinador de futebol, acho-o o melhor treinador que poderíamos aspirar a ter. Mas gosto interminavelmente mais do Sporting. Por isso, menos conversa, menos bazófia, mais e melhor trabalho, que aqui não se dá carta branca a ninguém. Vá.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Crónicas de um algarvio desempregado: dia 3


Geralmente não resisto à tentação de desafiar as probabilidades, dá-me um certo gozo fazer pouco da percentagem de que pode correr mal o que à partida é para correr bem. Uma relação de, sei lá, 70/30, já é um petisco, e quanto mais próximo dos 50/50, quanto maior a dúvida, melhor.

Saber que o depósito do carro está na reserva e só atestar no dia seguinte; ir a Paredes de Coura sem casaco; andar pelo Urban sem um paninho para ir limpando o chão.

Os invejosos vão chamar-lhe facilitismo. Se calhar é.

Noutro momento teria apanhado o metropolitano para ir à entrevista. Tinha mais de meia hora, dava tempo. Mas a vida tende a tirar alguma lata a quem já a teve de sobra (e a lentamente compensar os menos afoitos), e desta vez enchi os pulmões de ar, ergui os olhos para o céu, bem abertos, venham daí as respostas, levei em cheio com um raio de sol, seguido de um segundo de escuridão -, o sol é de todos e de ninguém, não acha piada que lhe olhem de frente - e resolvi ir a pé, com receio de que uma avaria numa linha de ferro me atraiçoasse.

De maneira que cheguei ao local combinado com dez minutos de avanço, tudo controlado, dava-me jeito uma fita de tenista para estancar o rio com nascente na testa, mas tudo bem, bateria aqui do lado esquerdo num ritmo sossegado. E foi isto. Uma seca. Já a entrevista valeu a pena. Pessoas com vontade de fazer coisas novas. Sem medo de saltar com os dois pés para terreno desconhecido. Faz falta, isto.

Aspirei e lavei o chão de casa antes de ir a um café que a Fátima me tinha recomendado. O espaço é acolhedor como outros, com a vantagem de ter uma janela grande que dá para a rua, muita luz, como paisagem leva-se é com tuk tuks a toda a hora, cheios de turistas a caminho do miradouro local.

Luz tem, som também. Um amigo convidou-me para ir a um concerto de jazz nessa noite, não podia, merda, mas montanha e Maomé trocaram de lugar para que à tarde os mestres do Bebop me visitassem ali, saxofones e clarinetes em parafuso, pareciam putos a correr pelo jardim, liberdade, liberdade, e lá atrás os pais a controlar o ritmo, lá atrás o contrabaixo, grave e autoritário, discreto mas presente.

Achei piada a uma estantezinha ordinária colocada junto ao balcão. Não tinha muitos livros: grande parte deles eram franceses, quase todos os portugueses eram para crianças e sobrava o Anátema, do Camilo Castelo Branco. Ocorreu-me fazê-lo, mas não vou publicar aqui a capa do livro. All in em como tive pesadelos de que felizmente não me lembro.

Em todo o caso, uma boa toca para respirar fundo, aquela. Até me pareceu mal pedir a chave do wi-fi; deixei-me estar, eu e a minha cerveja. Entretanto a Fátima ligou-me a pedir que comprasse bacalhau desfiado.

Já não faltava muito para o jantar que tínhamos combinado lá em casa. Como a Fátima não encontrou bacalhau desfiado à venda, despachei a minha cerveja e saí à rua em missão. Entrei num Pingo Doce ali perto e encontrei um expositor com bacalhau desfiado, pronto a comer. Liguei à Fátima para saber se aquilo servia, mas não tinha rede. Recuei cinco ou seis passos até à zona da fruta, e ao pé dos tomates liguei-lhe de novo. Rede, nada. Só consegui falar com ela e saber que bacalhau pronto a comer não servia, tinha de ser congelado, quando cheguei à parte das melancias. 

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Crónicas de um algarvio desempregado: dia 2


Vinte anos de trabalho em Vigo deixaram Luis García com uma cantiga à Paulo Futre, por supuesto. Deu ao litro na Organización Nacional de Ciegos Españoles, a ONCE, mas enquanto Laurent Jalabert e outros pedalavam, ele vendia lotarias. Luis García era Luís Garcia, mas entretanto o acento agudo do primeiro nome saltou para o segundo - já tem nacionalidade espanhola. Orgulhoso, puxou do cartão de identificação e provou a sua condição profundamente ibérica a mim e a um amigo, depois de o ajudarmos a encontrar a linha vermelha do metropolitano.
Levei-o pelo braço desde a saída na linha amarela, e antes de chegarmos à vermelha já Luis García me estava a convidar para um dia destes beber um copo, caso passasse por Pontevedra, onde chegaria para ficar, a partir da Gare do Oriente. No último ano viveu em Portugal, ao que parece em Braga, mas estava de volta à Galiza. Um pulinho.
Perguntou-me se já tinha ido ao Norte, e por Norte depreendi um Norte sem fronteiras, com Minho, Galiza e tudo; respondi que sim, que gostava muito, volta e meia visitava esse grande Norte, e a última vez tinha sido há um ano: Coura. Ao que Luis García disparou, animado: tinha estado lá, em Coura, tinha sido "potente", e mais "potente" ainda foi uma festa de branco, em Braga, na qual "nunca tinha visto tanta gente na vida, hostia!"
Além de disparar tiros muito cantados e certeiros, Luis García, um peso-pesado da ONCE, o Wayne Rooney da lotaria em Espanha, tinha uma característica óbvia, que o tornava especial perante os outros: um sorriso permanente, que reflectia um espírito luminoso. Quando nos despedimos, não sorriu, porque já estava a sorrir, e na sua cantiga à Futre deu este nó cego ao infortúnio: "vemo-nos por aí!".
Encerramentos é coisa que não me seduz muito por estes dias, de modo que abri uma conta-poupança antes de visitar um amigo que já teve melhores dias, e melhores dias voltará a ter, que coragem não lhe falta. Ainda fui a casa, e a tentação de ir à Net fez-me saber que tinha sido convidado para ir a uma universidade falar sobre isto das palavras. Anda perguntei a quem me fez o convite: acha mesmo boa ideia dar como referência aos seus alunos alguém que acabou o curso há nove anos, não tem emprego e até ver nada editou? Disseram-me que sim e lá aceitei.
A caminho do metropolitano protegi os olhos do verão mais quente
com os meus óculos de sol, tirei-os ao passar por uma sombra boa, voltei a colocá-los quando atravessei a estrada e a tirá-los quando entrei na estação do metropolitano. Tirei e pu-los muitas vezes, e quando estava a chegar ao café no qual tinha combinado com o meu amigo que já teve melhores dias, e melhores dias voltará a ter, que coragem não lhe falta, fiquei com uma haste na mão. De tanto tirar e pôr, saltou. Quando se tira e põe tantas vezes, o mais certo é saltar alguma coisa.